domingo, 22 de maio de 2011

Junqueira Freire

Luís José Junqueira Freire nasceu em Salvador em 1832 e faleceu no mesmo local em 1855. Tendo estudado Humanidades no Liceu Provincial de Salvador, ingressou na ordem beneditina, mais para fugir dos conflitos familiares do que por vocação. Lá permaneceu por pouco tempo, abandonando a vida sacerdotal em 1854 por necessidade de fuga dos constantes momentos de desespero por que passou dentro de sua vida sacerdotal, causados por sua falta de fé e vocação e sua desilusão em relação à vida monástica, o que foi presenciado no seu livro "Inspirações do Claustro", publicado na Bahia em 1865. De volta a casa da mãe, vem a morrer um ano depois, vítima de problemas cardíacos que o molestavam desde a infância.

CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS

As dramáticas e desesperadas experiências que Junqueira Freire passou dentro do sacerdócio, e dentro do convívio familiar, irão refletir-se em toda a sua obra poética, fortemente autobiográfica. Nela se pode constatar a notória crise de morais e conceitos com que a igreja convivia no século XIX, refletida nos seus versos, onde é marcante todo o seu conflito entre a vida religiosa e a revolta com os fatos que presenciou dentro dela. Sua falta de vocação e seu desejo ardente pelos prazeres do mundo também são expressos com um forte lirismo e ao mesmo tempo com um constante pessimismo e tristeza. O amor, contrastando com a sexualidade reprimida, a consciência do pecado e o sentimento de culpa, levam-no várias vezes a desejar ardorosamente a cura e o alívio da morte, dando-lhe a afinidade de uma amiga portadora da paz eterna – como se vê em um dos seus poemas mais conhecidos: Morte.

Embora pertencente ao Romantismo, Junqueira Freire teve, no entanto, uma ligação ainda muito forte com o estilo neoclássico, o que tornou suas poesias carentes de uma fluência mais romântica, ou seja, mais melodiosa, com versos mais livres. Seu estilo mais preso, de caráter mais rígido, não lhe permite expressar todos os seu sentimentos de forma mais solta e intensa.

Sua única obra de poesias, as "Inspirações do Claustro (1855), tem grande valor de testemunho das experiências interiores passadas pelo autor em sua breve vida: o desgosto na casa dos pais as ilusões sobre a vocação monástica as dúvidas e desesperos nos dois anos em que permaneceu na Ordem.

A obra de Junqueira Freire mereceu um louvor, mas também uma crítica, por parte de Machado de Assis: foi louvada pela forma sincera como retratou todo o drama de um indivíduo preso a uma falsa vocação; crítica ao modo dessa poesia, que caiu no genérico e prosaico, ficando abaixo da síntese conteúdo-forma. Uma prova de sua dificuldade em conciliar intenções e forma é "À Profissão de Frei João das Mercês Ramos", onde expõe o fracasso de sua vocação. Porém, sua obra também apresentou alguns momentos felizes, nos quais lhe foi benéfica a aproximação com fontes populares e outros, nos quais sua concepção anacrônica do verso se ajustou a uma poesia mais racional (de pensamento) que de sensibilidade.

sábado, 21 de maio de 2011

Mário Quitana- Pausa

Quando pouso os óculos sobre a mesa para uma pausa na leitura de coisas feitas,ou na leitura de minhas próprias coisa,surpreendo-me a indagar com que se parecem o óculos sobre a mesa.
Com algum insetos de grandes olhos e negras e longa pernas ou antenas?
Com algum ciclista tombado?
Não,nada disso me contente ainda.Com que se parecem mesmo?
E sinto que,enquanto eu não puder captar a sua implícita imagem-poema,a inquietação perdurará.
E,enquanto o meu Sancho Pança,cheio de si e de senso comum,declara ao meu Dom Quixote que uns óculos sobre a mesa,além de parecerem apenas uns óculos sobre a mesa,são, de fato,um par de óculos sobre a mesa,fico a pensar qual dos dois-Dom quixote ou Sancho?-vive uma vida mais intensa e portanto mais verdadeira...
E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade da recriação das coisas em imagens,para terem mais vida,e da vida em poesia,para ser mais vivida.
Esse enigma,eu paso a ti,pobre leitor.
E agora?
Por enquanto,ante a atual insolubilidade da coisa,só me resta citar o terrível dilema de stechetti:
"Io sonno un poeta o sonno un imbecile?"
Alternativa,aliás,extensiva ao leitor de poesia...
A verdade é que a minha atroz funçao não é resolver e sim propor enigma,fazer o leitor pensar e não pensar por ele.
E dai?
-Mais o melhor -pondera-me,com a sua voz pausada,o meu Sancho Pança-,o melhor é repor depresa os óculos no nariz.

Texto literário e texto não-literário


Relacionando o texto literário ao não-literário, devemos considerar que o texto literário tem uma dimensão estética, plurissignificativa e de intenso dinamismo, que possibilita a criação de novas relações de sentido, com predomínio da função poética da linguagem. É, portanto, um espaço relevante de reflexão sobre a realidade, envolvendo um processo de recriação lúdica dessa realidade. No texto não-literário, as relações são mais restritas, tendo em vista a necessidade de uma informação mais objetiva e direta no processo de documentação da realidade, com predomínio da função referencial da linguagem, e na interação entre os indivíduos, com predomínio de outras funções.

A produção de um texto literário implica:
· a valorização da forma
· a reflexão sobre o real
· a reconstrução da linguagem
· a plurissignificação
· a intangibilidade da organização lingüística

2.1 valorização da forma

O uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma, visando a exploração de recursos que o sistema lingüístico oferece, nos planos fônico, prosódico, léxico, morfo-sintático e semântico.

Não é o tema, mas sim a maneira como ele é explorado formalmente que vai caracterizar um texto como literário. Assim, não há temas específicos de textos literários, nem temas inadequados a esse tipo de texto.

Os dois textos que seguem têm o mesmo tema - o açúcar: no primeiro, a função poética é predominante. É uma das razões para ser considerado um texto literário. Já no segundo, puramente informativo, há o predomínio da função referencial.

"O açúcar" (Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980, pp.227-228)

O açúcar


O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

"A cana-de-açúcar" (Vesentini, J.W. Brasil, sociedade e espaço. São Paulo, Ática, 1992, p.106)

A cana-de-açúcar

Originária da Ásia, a cana-de-açúcar foi introduzida no Brasil pelos colonizadores portugueses no século XVI. A região que durante séculos foi a grande produtora de cana-de-açúcar no Brasil é a Zona da Mata nordestina, onde os férteis solos de massapé, lém da menor distância em relação ao mercado europeu, propiciaram condições favoráveis a esse cultivo. Atualmente, o maior produtor nacional de cana-de-açúcar é São Paulo, seguido de Pernambuco, Alagoas, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Além de produzir o açúcar, que em parte é exportado e em parte abastece o mercado interno, a cana serve também para a produção de álcool, importante nos dias atuais como fonte de energia e de bebidas. A imensa expansão dos canaviais no Brasil, especialmente em São Paulo, está ligada ao uso do álcool como combustível.

Comentários sobre os textos: "O açúcar" e "A cana-de-açúcar"

O texto "O açúcar" parte de uma palavra do domínio comum - açúcar - e vai ampliando seu potencial significativo, explorando recursos formais para estabelecer um paralelo entre o açúcar - branco, doce, puro - e a vida do trabalhador que o produz - dura, amarga, triste.

a) associações lexicais entre vocábulos do mesmo campo semântico:

açúcar açucareiro adoçar
dissolver usina
cana
canavial
plantar
colher mercearia
comprar
vender

b) relações antitéticas: vida amarga e dura x açúcar branco e puro

c) comparações: a comparação é o confronto de idéias por meio de conectivos, de palavras que explicitam o que está sendo comparado. Na comparação, um termo se define em função do que sabemos de outro:

"Vejo-o [o açúcar] puro e afável como beijo de moça

(como) água na pele

(como) flor que se dissolve na boca

No texto "A cana-de-açúcar", de expressão não-literária, o autor informa o leitor sobre a origem da cana-de-açúcar, os lugares onde é produzida, como teve início seu cultivo no Brasil, etc.

Para caracterizar ou explicitar a diferença entre função informativa e função artístico-literária da linguagem, através do confronto entre um determinado dado da realidade e o mesmo dado, reaproveitado em uma obra artística, podem ser comparadas as seguintes situações:
a) o barulho de buzinas na rua e uma música que use esse mesmo som;
b) o som de vozes de crianças brincando e a música Domingo no Parque (Gilberto Gil);
c) o som de uma cavalgada e a música Disparada ( Geraldo Vandré );
d) uma foto de jornal - uma foto dos sem-terra e um quadro - Os retirantes, de Portinari - com o mesmo tema da foto;
e) várias cenas do cotidiano e uma colagem de Glauco Rodrigues;
f) imagens de pessoas se movimentando e uma escultura representando pessoas;
g) uma pequena crítica sobre a passagem de uma escola de samba e a música Foi um rio que passou em minha vida ( Paulinho da Viola).

2.2 reflexão sobre o real

Em lugar de apenas informar sobre o real, ou de produzi-lo, a expressão literária é utilizada principalmente como um meio de refletir e recriar a realidade, reordenando-a. Isso dá ao texto literário um caráter ficcional, ou seja, o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva, de maneira indireta, recriando o real num plano imaginário.

Refletindo a experiência cultural de um povo, o texto literário contribui para a definição e para o fortalecimento da identidade nacional. Por isso, num país como o Brasil, onde as características culturais precisam ainda ser revitalizadas e valorizadas, as artes desempenham um papel muito importante.

A título de exemplo, citamos Platão e Fiorin (1991), que dizem: "Graciliano Ramos, em VIDAS SECAS, inventou um certo Fabiano e uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos fabianos e sinhás vitórias, despossuídos de quase todos os bens materiais e culturais, e por isso degradados ao nível da animalidade."

2.3 recriação da linguagem (desautomatização)

No texto literário, relacionada ao processo de recriação do real, ocorre a desautomatização da linguagem. Assim, pela reinvenção dos procedimentos lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano, a expressão literária desconstrói hábitos de linguagem, baseando sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer. O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações entre as palavras, combinando-as de maneira inusitada, singular, revelando assim novas formas de ver o mundo.

Apresentamos, a seguir, três textos que exemplificam esse processo: os dois primeiros, que tratam do mesmo tema, são comparados em relação aos recursos lingüísticos utilizados, o que os caracteriza como literário e não-literário, respectivamente.

Texto 7 - "A queimada" (Fragmento. Graça Aranha. Canaã, Rio de Janeiro,F.Briguiet, pp.111-113)

Texto 8 - "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro" (Jornal do Brasil, 19/02/97)

Texto 9 - "Carnaval" (Graça Aranha, A viagem maravilhosa. Apud William Cereja e Thereza Magalhães. Português: linguagens. São Paulo, Atual, 1990, p.178)

Texto 7

A queimada

Num alvoroço de alegria, os homens viam amarelecer a folhagem que era a carne e fender-se os troncos firmes, eretos, que eram a ossatura do monstro. Mas o fogo avançava sobre eles, interrompendo-lhes o prazer. Surpresos, atônitos, repararam que a devastação tétrica lhes ameaçava a vida e era invencível pelo mato adentro, quase pelas terras alheias. (...) O aceiro foi sendo aberto até que o fogo se aproximou; a coluna, como um ser animado, avançava solene, sôfrega por saciar o apetite. Sobre a terra queimada na superfície, aquecida até o seio, continuava a queda dos galhos. O fogo não tardou a penetrar num pequeno taquaral. Ouviam-se sucessivas e medonhas descargas de um tiroteio, quando a taboca estalava nas chamas. O fumo crescia e subia no ar rubro, incendiado, os estampidos redobravam, as labaredas esguichavam, enquanto a fogueira circundava num abraço a moita de bambus.

(Fragmento. Graça Aranha. Canaã, Rio de Janeiro,F.Briguiet, pp.111-113)

Texto 8

Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro

Um incêndio, possivelmente provocado por um curto-circuito, destruiu no início da madrugada de ontem um prédio de quatro andares na Rua Teófilo Otoni, 38, no Centro. O fogo começou no primeiro andar, onde funcionava uma empresa especializada na venda e fabricação de componentes eletrônicos, a Mec Central. O prédio era de construção antiga e estava em obras; como havia grande quantidade de madeira estocada, a propagação do fogo foi rápida. A ação dos bombeiros evitou que prédios vizinhos fossem atingidos pelas chamas. Não houve feridos.

(Jornal do Brasil, 19/02/97)

Comentários sobre os textos 7 e 8 : "A Queimada" e "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro"

Reconhecemos o texto 7, "A Queimada", como um texto literário, por apresentar inúmeros recursos expressivos: metáforas (folhagem/carne; troncos/ossos; o ar rubro) e comparações (a coluna, como um ser animado, avançava solene). O autor fala da queimada como se ela fosse um ser vivo, atribuindo-lhe características próprias de seres animados, como solene, sôfrega, cheia de apetite. Neste texto, o plano do conteúdo, a descrição de uma queimada, é recriado no plano da expressão.

No texto 8, "Incêndio destrói prédio de 4 andares no Centro", o leitor passa pelo plano da expressão e vai direto ao conteúdo para entender, informar-se. Trata-se, por isto, de um texto não-literário, cuja finalidade é documentar, transmitir notícias. A linguagem deste texto é denotativa, não apresenta nenhuma combinação nova ou inusitada de palavras; seu conteúdo pode ser resumido sem prejuízo da informação que ele contém.

Texto 7 Texto 8

"a coluna avançava solene e sôfrega"
"o incêndio começou no primeiro andar"
"a propagação foi rápida"

adjetivação metafórica:
troncos firmes e eretos
descargas medonhas
ar rubro
ausência de adjetivação: o incêndio,
o fogo,
o prédio,
propagação do fogo,
a ação dos bombeiros.

Texto 9

Carnaval

Maravilha do ruído, encantamento do barulho. Zé Pereira, bumba, bumba. Falsetes azucrinam, zombeteiam. Viola chora e espinoteia. Melopéia negra, melosa, feiticeira, candomblé. Tudo é instrumento, flautas, violões, reco-recos, saxofones, pandeiros, liras, gaitas e trombetas. Instrumentos sem nome inventados subitamente no delírio da improvisação, do ímpeto musical. Tudo é encanto. Os sons se sacodem, berram, lutam, arrebentam no ar sonoro dos ventos, vaias, klaxons, aços estrepitosos. Dentro dos sons movem-se cores, vivas , ardentes, pulando, dançando, desfilando sob o verde das árvores, em face do azul da baía no mundo dourado. Dentro dos sons e das cores, movem-se os cheiros, cheiro de negro, cheiro mulato, cheiro branco, cheiro de todos os matizes, de todas as excitações e de todas as náuseas. Dentro dos cheiros, o movimento dos tatos violentos, brutais, suaves, lúbricos, meigos, alucinantes. Tatos, sons, cores, cheiros se fundem em gostos de gengibre, de mendubim, de castanhas, de bananas, de laranja, de bocas e de mucosa. Libertação dos sentidos envolventes das massas frenéticas, que maxixam, gritam, tresandam, deslumbram, saboreiam, de Madureira à Gávea, na unidade do prazer desencadeado. (Graça Aranha, A viagem maravilhosa. Apud William Cereja e Thereza Magalhães. Português: linguagens. São Paulo, Atual, p.178)

Comentários sobre o texto 9 - "Carnaval"

Neste texto, os cinco sentidos são explorados de maneira simbólica e inusitada: sons, cores, cheiros, tatos e gostos vão se sucedendo para descrever o carnaval, seu ambiente, a mistura de raças, o contato físico entre as pessoas, a euforia da festa.

Em primeiro lugar, ruídos e sons de diversos instrumentos enchem o ar. Acompanhando esses sons, as cores da natureza e das fantasias se movem, desfilam. Ao ritmo dos sons e cores, movem-se as pessoas das diversas raças, misturando seus cheiros, variados e inebriantes, tocando-se das mais diversas formas: pela luta, pelo carinho, pela sexualidade. Esse contato íntimo conduz a uma fusão de bocas e gostos.

Tudo isto é o carnaval - "libertação dos sentidos", proporcionando um "prazer desencadeado". O autor, observador atento de uma cena, expressa seu modo de ver o mundo, suas preferências, seu estado emocional. Ele não descreve o que vê, mas o que pensa ver, o que sente, combinando as palavras de forma inesperada, revelando novas imagens decorrentes dessas combinações.

Sons:
· viola chora e espinoteia
· os sons se sacodem, berram, lutam, arrebentam no ar sonoro ...
Cores:
· movem-se cores, vivas, ardentes, pulando, dançando, desfilando ...
Cheiros:
· movem-se os cheiros, cheiro de negro, cheiro mulato, cheiro branco,
cheiro de todos os matizes, de todas as excitações e de todas as náuseas.
Tato:
· o movimento dos tatos violentos, brutais, suaves, lúbricos, meigos, alucinantes.
Gosto:
· gostos de gengibre, de mendubim, de castanhas, de bananas, de laranja,
de bocas e de mucosa.

2.4 Plurissignificação

O trabalho de recriação que se efetiva na construção do texto literário é uma atividade lúdica, uma brincadeira com a linguagem. Por isso, o texto literário provoca um prazer estético em seu fruidor, como acontece nas outras manifestações artísticas. Enquanto atividade de recriação, a expressão literária se caracteriza pela conotação , criando novos significados, ao passo que a expressão não-literária se reconhece pelo seu caráter denotativo . No texto literário, faz-se igualmente um amplo uso de metáforas e metonímias, com o objetivo de despertar no leitor o prazer estético. Isto é o que define seu caráter plurissignificativo.

Texto 10 - "Acrobatismo" (Cassiano Ricardo)

Acrobatismo


Parou o vento. Todas as árvores
quiseram ver o salto original.
Então
quedaram-se todas
com os seus anéis azuis de orvalho
e os seus colares de ouro teatral,
prestando muita atenção.

Foi como se um silêncio fofo de veludo
Começasse a passear seus pés de lã por tudo.
Nisto uma folha sai, muito viva, de uma rama,
e vai cair sem o menor rumor
sobre o tapete da grama.

É um louva-a-deus lépido e longo
que se jogou de um trapézio
como um pequeno palhaço verde
e lá se foi a rodopiar
às cambalhotas
no ar.

Comentários sobre o texto 10 - "Acrobatismo"

Neste poema, há um amplo uso de metáforas, isto é, uso de palavras fora do seu sentido normal. Segundo Mattoso Câmara Jr. (1978), a metáfora "consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu". Fundamenta-se "numa relação toda subjetiva, criada no trabalho mental de apreensão."

Assim, por exemplo, entre a folha e o louva-a-deus traços comuns como a leveza de movimento, a cor, permitem que se estabeleça entre eles uma relação, a partir da qual se cria uma metáfora. O mesmo acontece entre o trapézio e o galho de onde o inseto se jogou no ar (um traço comum entre eles é, por exemplo, a forma); entre o palhaço verde e o louva-a-deus (traços comuns: a cor, a acrobacia de um e outro); entre o tapete de grama e o chão recoberto de vegetação (têm em comum a cor, a maciez).

Mais informações sobre os conceitos de conotação e de denotação são apresentados no item 1 do índice.

2.5 intangibilidade da organização lingüística

Uma das características do texto literário é a sua intangibilidade, sua intocabilidade. As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para combiná-las são próprias de cada texto, e não devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção do autor. Não podemos, portanto, num texto literário, mudar a posição em que as palavras foram colocadas, suprimir ou acrescentar vocábulos, substituir vocábulos por sinônimos, resumir as idéias. A esse respeito, o poeta francês Paul Valéry diz que, quando se resume um texto não-literário, apreende-se o essencial; quando se resume um texto literário, perde-se o essencial.

Podemos, por exemplo, perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema da separação amorosa. Poderão surgir, a partir de suas respostas, textos líricos, poéticos e textos não-literários. No Soneto da Separação, Vinícius de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. Pelo trabalho com a linguagem, pelo uso de recursos poéticos, seu soneto é um texto literário.

Texto 11

Soneto da Separação


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mão espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Apresentamos, a seguir, um poema de Ferreira Gullar (texto 12) , a partir do qual são feitos comentários que evidenciam algumas características da expressão literária apontadas no embasamento teórico.

Texto 12

Meu povo, meu poema


Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a ávore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta

Comentários sobre o texto 12

Quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização da linguagem, podemos observar:
a) a escolha de palavras que compõem as comparações do poema: o poema nasce como o açúcar, o povo e o poema crescem como a árvore nova. Estas comparações levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore.
b) o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas repetições : "Meu povo e meu poema" , "no povo meu poema", "Ao povo seu poema."
c) a rima na última estrofe: canta/planta reforça as metáforas básicas do poema: povo/terra, poema/árvore.
d) a personificação : "Como o sol na garganta do futuro."

Dois planos foram explorados -- o do real e o da recriação da realidade:

Real -> o campo da agricultura: plantar, crescer, terra fértil.

Recriação -> o poeta associa a germinação e a fertilidade à palavra poética; o poeta é comparado a um plantador; o poema é o fruto que ele produz (metáfora).

Um outro exemplo interessante para mostrar a desautomatização da linguagem encontramos no poema Som, de Carlos Drummond de Andrade (texto 15), em que o autor, ao invés de usar a expressão hoje em dia, já cristalizada na língua, cria a expressão hoje-em-noite.

2.6 recursos fônicos característicos da literariedade

O escritor de um texto literário, ao explorar conteúdos, procura recriar a linguagem, e, para essa recriação, utiliza recursos variados. São alguns deles:

· ritmos
· sonoridades
· rimas e aliterações

a) Ritmo - evidencia-se pela alternância de sílabas que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação.

Texto 13

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
(Casimiro de Abreu)

Textos literários em prosa também podem apresentar efeitos sonoros e rítmicos. Como exemplo, transcrevemos um trecho do romance "Gabriela, cravo e canela", de Jorge Amado (texto 14)

Texto 14

"Gabriela ia andando, aquela canção ela cantara em menina. Parou a escutar, a ver a roda rodar. Antes da morte do pai e da mãe, antes de ir para a casa dos tios. Que beleza os pés pequeninos no chão a dançar! Seus pés reclamavam, queriam dançar. Resistir não podia, brinquedo de roda adorava brincar. Arrancou os sapatos, largou na calçada, correu pros meninos. De um lado Tuísca, de outro lado Rosinha. Rodando na praça, a cantar e a dançar." (Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado)

Este texto, em forma de prosa, apresenta um ritmo e uma sonoridade que nos fazem lembrar os textos em verso. Existem nele:
· rimas (escutar, rodar, dançar, brincar);
· inversões que contribuem para o ritmo e a rima (os pés pequeninos no chão a dançar, brinquedo de roda adorava brincar);
· frases curtas com um número aproximado de sílabas:

seus pés reclamavam
queriam dançar
resistir não podia
brinquedo de roda
adorava brincar

de um lado Tuísca
de outro lado Rosinha
rodando na praça
a cantar e a dançar

Seja em prosa, seja em verso, o texto poético contribui para o enriquecimento da linguagem, explorando a sonoridade e o ritmo das palavras e atribuindo-lhes novos sentidos, mesmo quando essas palavras são as do dia-a-dia.
b) Sonoridade - por meio da sonoridade de um texto, é possível prolongar, evidenciar ou transformar o sentido que o léxico e a sintaxe dão às palavras e às frases.

Texto 15
Som

Nem soneto nem sonata
vou curtir um som
dissonante dos sonidos
som
ressonante de sibildos
som
sonotinto de sonalhas
nem sonoro nem sonouro
vou curtir um som
mui sonso, mui insolúvel
som não sonoterápico
bem insondável, som
de raspante derrapante
rouco reco ronco rato
som superenrolado
com se sona hoje-em-noite
vou curtir, vou curtir um som
ausente de qualquer música
e rico de curtição
(Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa.
Rio de Janeiro, Aguillar, 1979, p.784)

Neste poema, aproveitando as associações de significantes, o poeta faz a palavra som ecoar o tempo todo, sob a forma de palavras derivadas de som, ou de vocábulos que apresentam a seqüência fônica s o n, sem relação semântica com a palavra som. Observe:

soneto sonouro
sonata sonoro
dissonante sonso
sonidos insolúvel
ressonante sonoterápico
sontinto insondável
sonalhas sona
Há também uma seqüência onomatopaica, reproduzindo o ruído estridente da música moderna:

ressonante reco
derrapante ronco
raspante rato
rouco superenrolado

c) Rimas e aliterações - fonemas que se repetem com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir para a harmonia do poema; muitas vezes essa repetição serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema, como nestes versos de Murilo Araújo, em que a insistência do [i] sugere o barulho provocado pelos grilos.

Texto 16
O trilo dos grilos, tímido,
de aço fino,
esgrime, com o raiozinho dos astros, límpido,
argentino.

No poema de Cruz e Souza, a repetição do fonema [v] contribui para o efeito sonoro dos versos e evidencia, mais uma vez, o uso poético da linguagem.

Texto 17
Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
Nesta estrofe do soneto de Alphonsus de Guimaraens, Hão de chorar por ela os cinamomos, a repetição de vogais nasais e fechadas contribui para reforçar o conteúdo triste e sombrio.
Texto 18
Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

Rima é a conformidade ou identidade de fonemas, que ocorre geralmente no final de dois versos diferentes, podendo aparecer também entre vocábulos no interior dos versos. Existem muitas possibilidades de disposição das rimas nas estrofes do poema. As mais freqüentes são as emparelhadas, as alternadas, as opostas, as encadeadas, as misturadas.

Além disso, as rimas podem ser classificadas em função da sua riqueza, que é definida pelo maior ou menor número de fonemas associados, pelas classes das palavras que rimam pela raridade das terminações. Neste sentido, as rimas podem ser perfeitas, imperfeitas, pobres, ricas, preciosas.

O texto abaixo exemplifica rimas emparelhadas, porque se sucedem duas a duas, e ricas, pois as palavras que rimam pertencem a diferentes classes gramaticais (retalha/toalha: verbo e substantivo; multicores/amores: adjetivo e substantivo; secreta/poeta: adjetivo e substantivo)

Texto 19
Queixas do poeta

No rio caudaloso que a solidão retalha,
na funda correnteza na límpida toalha,
deslizam mansamente as garças alvejantes;
nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes
embalam-se avezinhas de penas multicores
pejando a mata virgem de cânticos de amores;
mais presa de uma dor tantálica e secreta
de dia em dia murcha o louro do poeta! ...
(Fagundes Varela)

A literatura é o veículo, por excelência, da linguagem em sua função poética, mas não é o único; podemos perceber também na publicidade, nas brincadeiras infantis, nos jogos de palavras, nos trocadilhos a presença da linguagem poética.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Manuel Bandeira

Análise da obra

Coletânea de poemas selecionados pelo próprio Manuel Bandeira, um dos mais importantes poetas brasileiros do século XX. Mostram a busca pelo significado das coisas com um lirismo maduro e simples. Cheios de angústia e busca pelo significado das coisas, os poemas tratam basicamente sobre morte, humildade, infância e sensualidade. São quatro fortes pontos que marcaram a vida do autor.

Estilo

A leitura não-linear, rompendo a ordem cronológica da publicação dos livros, mostra a evolução e a reformação estética de temas recorrentes na poesia de Manuel Bandeira: a presença do cotidiano, a preocupação com a morte, e defesa da linguagem modernista, a sensualidade, o lirismo tradicional, o antilirismo, a impossibilidade existencial, reminiscências da infância, o humor, a experimentação com o significante, o apego a formas finisseculares parnasiano simbolista.

A poesia de Manuel Bandeira caracterizou-se pela variedade criadora, desde o soneto parnasiano, pela prática do verso livre, até por experiências com a poesia concretista. Por outro lado, conservou e adaptou ao espírito moderno os ritmos e formas mais regulares, como os versos em redondilhas maiores. Em sua poesia, observa-se uma constante nota de ternura e paixão pela vida. Seu lirismo intimista registra o cotidiano com simplicidade, atribuindo-lhe um sentido de evento e espetáculo. Nela, também, estão presentes a infância, a terra natal, a cultura popular, a doença, a preocupação com a morte, a defesa da linguagem modernista, a sensualidade, o lirismo tradicional, o antilirismo, a reflexão existencial, a infância e o humor.

Verificamos, em Manuel Bandeira, traços indicadores de uma sensibilidade romântica, sobretudo de uma profunda tristeza, aliada ao desencanto e à melancolia. A confissão de seu estado de espírito, da presença do “eu” em poemas e da morte como motivo poético mais freqüente conferiu-lhe uma aura romântica.

Temáticas e estilos

A morte estava muito presente na vida de Bandeira, pois muito jovem descobriu a tuberculose. Como não pôde seguir a vida como arquiteto, Bandeira começou a se dedicar à poesia para preencher o espaço. Esta temática está presente desde o primeiro livro. A morte também determinou um estilo, mas sem o entusiasmo dos modernistas da época. Os paulistas eram extremamente exaltados, como Oswald e Mário de Andrade. Bandeira era um poeta da humildade, do tom mais baixo.

Outra temática dos poemas de Bandeira é a sensualidade, tratada de maneira diferente, não tradicional. O objeto do desejo era principalmente as prostitutas. Em função da própria experiência de vida sexual dele, não convencional por causa da doença.

Também a infância, como retorno ao passado, opõe-se a este presente de angústia e dor vivenciado pelo poeta. O folclore, suas quadras e canções populares, a família sempre apareceram ligados à infância. Foi o tempo feliz antes da doença. Depois o pai, a mãe e o irmão morreram, então foi o tempo de comunhão com os parentes.

Profundamente

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Em muitos poemas, Bandeira aproxima-se da estética parnasiana através da rigidez formal, da seleção de temas, da busca do universal e da apreensão objetiva da realidade. Em outros textos aparecem o irracionalismo, as paisagens indefiníveis, nebulosas e as atmosferas crepusculares. O Simbolismo, que além dessas características privilegiou a musicalidade, despertou no poeta o gosto pelo subjetivismo, pela introspecção.

Paisagem Noturna

(...)
O plenilúnio vai romper... Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas delinqüescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.

Assimilando as conquistas dos poetas do Modernismo, Manuel Bandeira, em muitos textos nos quais discute a prática poética, define esta nova postura estética. Primeiramente, houve uma ruptura com o Parnasianismo, ou com a tradição lírica da época; depois, estes textos negariam as confecções e manifestariam o desejo de libertação:

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem-comportado
(...)
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

O poema Poética é um manifesto modernista - metapoema = poesia que fala de poesia.

Versos livres, tom de manifesto que se recusa ao lirismo comedido, bem comportado - o lirismo metrificado, protocolar e acadêmico, erudito e conservador.

Ironiza o lirismo namorador que lembra a tradição romântica (Político, Raquítico, Sifilítico), tanto quanto o lirismo normativo, acadêmico, que lembra o parnasiano (contabilidade tabela de co-senos secretário...).

Muitas propostas da “fase heróica” do Modernismo (1922-1930) estariam incorporadas à sua poesia, entre elas: a fusão prosa/poesia, versos brancos (sem rimas), versos livres (sem métrica), nova utilização de sinais gráficos (linha pontilhada para indicar a respiração, por exemplo), o diálogo, o humor negro e a linguagem coloquial.

Pneumatórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e
o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Experiências concretistas

O Concretismo, poesia de vanguarda que se firmou na década de 60, também mereceu a atenção de Bandeira. Palavras soltas, sonoridade, visualização.

A onda

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

A opressão da realidade, a solidão e a doença conduziram-no à busca da evasão, à procura do lugar ideal, onde praticamente tudo seria possível:

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

A Estrela

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria !
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Põe que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
(Lira dos cinquent'anos)

A estrela é uma imagem obsessiva na poesia de Bandeira, metaforizando o absoluto, o inatingível, a luz que orienta, na mesma linha da poesia romântica e simbolista.

Algumas vezes, significa a mulher, sensual e distante, ansiosamente aguardada ("estrela da manhã").

Em A estrela, notam-se as posições entre a vida vazia do poeta e o brilho do astro inacessível, utópico. Os contrastes aparecem no plano espacial e cromático ("Era uma estrela sozinha Luzindo no fim do dia", "E ouvi-a na sombra funda").

Nos últimos versos há ironia, pois a estrela reitera a sua distancia insuperável, dando ao "eu" lírico uma esperança triste, uma vez que ele a contempla sem a menor possibilidade de aproximação.

A poesia de MB apresenta uma amplitude de âmbito, testemunhado uma variedade criadora que vem do Parnasianismo crepuscular até as experiências concretistas, do soneto às formas mais audazes de expressão.

Os Sinos

Sino de Belém,
Sino da paixão...
Sino de Belém,
Sino da paixão...
Sino do Bonfim!...
Sino do Bonfim!...

Sino de Belém, pelos que ainda vêm!
Sino de Belém, bate bem-bem-bem.
Sino da paixão, pelos que ainda vão!
Sino da paixão, bate bão-bão-bão.

Sino do Bonfim, por que chora assim?...

Sino de Belém, que graça ele tem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino da paixão. - pela minha irmã!
Sino da paixão. - pela minha mãe!

Sino do Bonfim, que vai ser de mim?...

Sino de Belém, como soa bem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino da paixão... Por meu pai?...-Não! Não!
Sino da paixão bate bão-bão-bão.
Sino do Bonfim, baterás por mim?...

Sino de Belém,
Sino da paixão...
Sino da paixão, pelo meu irmão...
Sino da paixão,
Sino do Bonfim...
Sino do Bonfim, ai de mim, por mim!

Sino de Belém, que graça ele tem!

A poesia tem também um tom pessoal, intimista, coloquial, sempre resvalando ou abordando diretamente o cotidiano.

Cita-se o poema Testamento:

..."Criou-me desde menino
Para arquiteto meu pai,
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-se arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!"

Seria mais fácil...


Seria tão fácil Senhor,
abandonar a luta por um mundo melhor...
Este mundo que não pára de nascer!
Seria tão fácil
renunciar às reuniões extenuantes,
às discussões,
às exposições,
a essas incontáveis acções e esses compromissos
ditos indispensáveis,
os quais, em certas noites de fadiga extrema,
duvido seriamente
que sirvam meus irmãos.
Seria tão fácil
ouvir estas vozes que me envolvem
e que se dizem sábias, amigáveis,
até mesmo afectuosas,
vozes que se me dirigem assim:
«estás a precipitar-te»
«lutas em vão»
«passas ao lado do essencial».
Vozes que murmuram insidiosamente
nas minhas costas
«ele gosta disto»
«está-lhe no sangue»
«não pode passar sem isso».
Seria tão fácil
ceder à falta de coragem
e vesti-la de boas e pias intenções,
como a dos deveres esquecidos
e das crises de fé.
Seria tão fácil
ficar em casa
ter de novo os serões livres
e os fim-de-semana disponíveis
e o sorriso das crianças
e os braços da namorada.
Seria tão fácil sentar-me
e curar as feridas após as duras batalhas,
repousar as pernas,
os braços, a cabeça
e o meu coração fatigados,
e acolher a paz longe do campo de combate,
e escutar , enfim, o silêncio,
no qual - segundo dizem -
falas aos Teus fiéis.
Seria mais fácil, Senhor,
ficar à margem e não sujar as mãos,
ver os outros baterem-se e debaterem-se
aconselhá-los e lastimá-los,
julgá-los... e rezar por eles,
Seria mais fácil...

sábado, 14 de maio de 2011

Vocabulário

Mountain (montanha)
Beach (praia)
Cave (caverna) Lake (lago)

River (rio)
Sky (Céu)
Valley (Vale)
Forest (floresta)
Jungle (selva)
Desert (deserto)
Ocean (oceano)
Sea (mar)
Glacier (geleira)
Plain (planície)
Swamp (pântano)
Meadow (prado)

Ridge (cordilheira)

Savannah (savana)

Pronomes Pessoais em Inglês


Os pronomes pessoais em Inglês são:
Singular Plural
I (eu) We (nós)
You (você) You (vocês)
He (ele) They (eles)
She (ela) They (elas)
It (objetos e animais) They


Estes pronomes funcionam como sujeito das orações. Por exemplo:

He is my friend
(ele é meu amigo)
a palavra "He" é o sujeito na frase acima.

They are brothers
(Eles são irmãos)
Neste caso, a palavra "They" funciona como sujeito.

Aprenda as cores em inglês:

Red Blue Green Yellow

White Black Gray
Orange

Pink Beige Turquoise Purple

Saiba como estudar inglês para o vestibular


A leitura de textos em inglês é a principal forma de estudar a matéria.


Procure principalmente textos sobre temas atuais em revistas e jornais estrangeiros


Textos em português também podem ajudar, pois dão uma noção sobre assuntos que podem ser tratados no vestibular, além de permitir o desenvolvimento da capacidade de interpretação de uma forma geral

Utilize sempre o dicionário para procurar as palavras que não conhece


Tente contextualizar as palavras novas. Não adianta tentar decorar, por exemplo, uma lista de "phrasal verbs" sem tentar montar orações e, assim, dar um sentido para elas


Não descuide da gramática. Mesmo sendo pouco cobrada, ela é importante para a compreensão dos textos


Se você não tem o hábito de ler textos em inglês, comece por assuntos que de seu interesse


Se for estudar por meio da tecla SAP da TV ou por meio das legendas em inglês de filmes em DVD, não assista passivamente, anote as palavras desconhecidas e verifique no dicionário seus significados


Se, na hora da prova, for cobrada uma palavra que você não conhece, não se desespere. Tente entender o contexto e leia os enunciados das questões e as alternativas, pois a tradução pode estar escrita na própria prova


Mesmo que você tenha freqüentado por anos escolas de inglês e acha que sabe muito bem a matéria, não deixe de estudar, pois há outros candidatos nessa mesma situação. Um pouco de estudo a mais pode ser a diferença para a sua aprovação.

da Folha de S.Paulo

quinta-feira, 5 de maio de 2011

REALISMO

Entre 1850 e 1900 surge nas artes européias, sobretudo na pintura francesa, uma nova tendência estética chamada Realismo, que se desenvolveu ao lado da crescente industrialização das sociedades. O homem europeu, que tinha aprendido a utilizar o conhecimento científico e a técnica para interpretar e dominar a natureza, convenceu-se de que precisava ser realista, inclusive em suas criações artísticas, deixando de lado as visões subjetivas e emotivas da realidade.

São características gerais:

* o cientificismo
* a valorização do objeto
* o sóbrio e o minucioso
* a expressão da realidade e dos aspectos descritivos

ARQUITETURA


Os arquitetos e engenheiros procuram responder adequadamente às novas necessidades urbanas, criadas pela industrialização. As cidades não exigem mais ricos palácios e templos. Elas precisam de fábricas, estações, ferroviárias, armazéns, lojas, bibliotecas, escolas, hospitais e moradias, tanto para os operários quanto para a nova burguesia.
Em 1889, Gustavo Eiffel levanta, em Paris, a Torre Eiffel, hoje logotipo da "Cidade Luz".


ESCULTURA

Auguste Rodin - não se preocupou com a idealização da realidade. Ao contrário, procurou recriar os seres tais como eles são. Além disso, os escultores preferiam os temas contemporâneos, assumindo muitas vezes uma intenção política em suas obras. Sua característica principal é a fixação do momento significativo de um gesto humano.
Obras destacadas: Balzac, Os Burgueses de Calais, O Beijo e O Pensador.

PINTURA

Características da pintura:
* Representação da realidade com a mesma objetividade com que um cientista estuda um fenômeno da natureza, ou seja o pintor buscava representar o mundo de maneira documental;
* Ao artista não cabe "melhorar" artisticamente a natureza, pois a beleza está na realidade tal qual ela é; e.
* Revelação dos aspectos mais característicos e expressivos da realidade.

Temas da pintura:

* Politização: a arte passa a ser um meio para denunciar uma ordem social que consideram injusta; a arte manifesta um protesto em favor dos oprimidos.
* Pintura social denunciando as injustiças e as imensas desigualdades entre a miséria dos trabalhadores e a opulência da burguesia. As pessoas das classes menos favorecidas - o povo, em resumo - tornaram-se assunto freqüente da pintura realista. Os artistas incorporavam a rudeza, a fealdade, a vulgaridade dos tipos que pintavam, elevando esses tipos à categoria de heróis. Heróis que nada têm a ver com os idealizados heróis da pintura romântica.


Principais pintores:

Courbet - foi considerado o criador do realismo social na pintura, pois procurou retratar em suas telas temas da vida cotidiana, principalmente das classes populares. Manifesta sua simpatia particular pelos trabalhadores e pelos homens mais pobres da sociedade no século XIX.
Obra destacada: Moças Peneirando o Trigo.


Jean-François Millet, sensível observador da vida campestre, criou uma obra realista na qual o principal elemento é a ligação atávica do homem com a terra. Foi educado num meio de profunda religiosidade e respeito pela natureza. Trabalhou na lavoura desde muito cedo. Seus numerosos desenhos de paisagens influenciaram, mais tarde, Pissarro e Van Gogh. É o caso, por exemplo, "Angelus".


Para seu conhecimento

Courbet dizia: "Sou democrata, republicano, socialista, realista, amigo da verdade e verdadeiro"

A palavra realismo designa uma maneira de agir, de interpretar a realidade. Esse comportamento caracteriza-se pela objetividade, por uma atitude racional das coisas pode ocorrer em qualquer tempo da história.

O termo Realismo significa um estilo de época que predominou na segunda metade do século XIX.

Fernando Pessoa é o maior poeta da língua portuguesa?


Fernando Segolin: Sem vacilação alguma! Há outros grandes nomes, claro. Poesia, para mim, é uma forma mágica de encontro. Ou seja, não é uma forma de comunicação, porque a comunicação não exige que você se encontre e isso hoje mais do que nunca, já que há telefone, internet etc. O poeta sempre soube desse encontro mágico - e a poesia surgiu exatamente quando os poetas perceberam que a linguagem servia apenas para a comunicação - e não para o encontro. Eles decidiram trabalhar a linguagem comunicativa, transformá-la, de modo a ser uma forma de encontro. E Fernando Pessoa é o mestre dos encontros, ele usa a linguagem não para se comunicar, mas sim para promover uma aproximação do autor com o leitor por meio dos signos. Signos que são trabalhados diretamente por Pessoa com o objetivo de fazer do significado alguma coisa que nasce, ensinando a humanidade a falar uma linguagem que não diz, mas sim procura ser.

Nova Ortografia

O novo acordo ortográfico do Brasil e de mais sete países que têm o português como língua oficial está em vigor desde janeiro. Até 2012, estaremos numa fase de transição, ou seja, as duas formas (a antiga e a prevista no acordo) serão aceitas em provas, vestibulares e concursos públicos. No entanto, a partir deste ano, fora essas exceções, você terá de escrever, sim, seguindo tais regras. Jornais, revistas, mídia em geral e documentos oficiais também devem se adequar ao novo formato. Livros didáticos, só no ano que vem.

1. O QUE MUDOU NO ALFABETO


Com o novo acordo, o alfabeto passa a ter 26 letras - eram 23. As letras K, W e Y foram incluídas oficialmente

2. TREMA


O sinal gráfico de dois pontos usado em cima do u para indicar que essa letra, nos grupos que, qui, gue e gui, é pronunciada, será abolido.
Palavras como tranqüilo, cinqüenta e lingüiça não serão mais escritas com o sinal de antes. Nesses casos, o correto é: tranquilo, cinquenta e linguiça. Porém, é importante lembrar que a pronúncia continua a mesma.
Exceção: o trema é mantido em nomes próprios.

COMO ERA - agüentar
COMO FICA - aguentar

COMO ERA - freqüente
COMO FICA - frequente

COMO ERA - sagüi
COMO FICA - sagui


4. ACENTO CIRCUNFLEXO


O acento circunflexo não é mais usado nas palavras terminadas com o hiato oo, como enjoo, voo, magoo, coo e abençoo. Da mesma forma, deixa de ser usado o circunflexo na conjugação da terceira pessoa do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos crer, dar, ler, ver e seus derivados: leem, veem, creem e deem.

COMO ERA - perdôo
COMO FICA - perdoo

COMO ERA - enjôo
COMO FICA - enjoo

COMO ERA - vôo
COMO FICA - voo

COMO ERA - abençôo
COMO FICA - abençoo

5. ACENTO DIFERENCIAL


Utilizado para facilitar a identificação de palavras diferentes que são escritas da mesma forma, o acento diferencial deixa de ser usado nos seguintes casos: Pára passa a ser para / Pólo passa a ser polo / Pêra passa a ser pera / Pêlo passa a ser pelo.

COMO ERA – péla
COMO FICA - pela

COMO ERA - polo
COMO FICA - polo

COMO ERA - pára
COMO FICA - para

COMO ERA - pêlo
COMO FICA - pelo



6. USO DO E e I


Os adjetivos e substantivos derivados em que entram os sufixos -iano e -iense devem ser escritos com i, e não e, antes da sílaba tônica

COMO ERA - acreano
COMO FICA - acriano

COMO ERA - Roseano (de Guimarães Rosa)
COMO FICA - Rosiano (de Guimarães Rosa)

COMO ERA - açoreano
COMO FICA - açoriano


7. HIFEN


- O hífen deixa de ser usado em alguns casos. Quando a primeira palavra terminar com uma vogal e a segunda se inicia também com uma vogal, porém diferente da que termina a anterior o hífen não será mais usado. Exemplos: Extra-oficial passa a ser extraoficial. / Auto-escola passa a ser autoescola; / Semi-árido passa a ser semiárido

COMO ERA - Extra-oficial
COMO FICA - extraoficial

COMO ERA - Auto-escola
COMO FICA - autoescola

COMO ERA - Semi-árido
COMO FICA - semiárido

- O mesmo acontece quando a segunda parte da palavra começar por r ou s. Letras essas que deverão ser dobradas para a correta grafia.

COMO ERA - anti-religioso
COMO FICA - antirreligioso

COMO ERA - contra-regra
COMO FICA - contrarregra

COMO ERA - anti-social
COMO FICA - antissocial

- Atenção! O hífen passa a ser usado nas palavras em que uma mesma vogal é usada para terminar a primeira palavra e iniciar a segunda.

Exceção: caso o prefixo da primeira palavra for co e a segunda parte da palavra composta começar com a vogal o, aí não se usa hífen, como coordenar e cooperar.

COMO ERA - reescrever
COMO FICA - re-escrever

COMO ERA - reeditar
COMO FICA - re-editar


O QUE NÃO SERÁ UNIFICADO


Certas palavras em que a vogal tônica pode ser aberta ou fechada, dependendo do país, continuam a levar acento circunflexo no Brasil e agudo em Portugal

BRASIL

Antônio
Tônica
Cômodo

PORTUGAL

António
Tónica
Cómodo